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Capitalismo para quê? (Jarbas Medeiros) Revista Caros Amigos, Ano VIII, Número 94, Janeiro 2005, Página 17

Há três séculos e pouco mais, com maior ênfase nos dois últimos, a civilização ocidental vem sendo literalmente sacudida e abalada, de alto para baixo, pelo capitalismo, inicialmente mercantil, depois industrial e agora global e informático. Nesse período, o mundo não teve um só minuto de sossego. Conheceu progressos espetaculares e nunca vistos, de grande utilidade pública e privada. Assim como sofreu milhares de guerras sangrentas, revoluções, genocídios e matanças bárbaras. Construiu-se toda uma ideologia para a economia de mercado concorrencial e um modelo de democracia política ajustados à concepção e interesses econômicos e financeiros do capitalismo. Essa economia (quase nunca seguida à risca segundo os interesses dos grandes produtores e das grandes nações) e essa ideologia construíram toda uma civilização e uma cultura, de inspiração judaico-cristã, que se constituiu na sua moral. O modelo de democracia política se inspirou nas chamadas três “revoluções burguesas”, no ideal das luzes e do primado da Razão e no lema do “governo do povo, pelo povo, para o povo”. Mas, sempre que necessário, por ameaças reais ou supostas, utilizou em benefício próprio ditaduras severas, “regimes de exceção” e “estados de sítio”. Assim como se serviu, externamente, sempre que julgou necessário ou conveniente, de guerras de domínio e colonialismo mundo a fora e, internamente, de aparatos caprichados de pressão. Sem maiores escrúpulos, praticou e comercializou a escravidão. Nessas épocas, que têm sido praticamente permanentes e constantes, apagam-se as luzes e esvanece-se a Razão. O progresso capitalista é e sempre foi manchado de sangue. O princípio legal e básico da propriedade privada dos meios de produção, um dos seus grandes pilares e alicerces mais sólidos, indispensáveis e intocáveis, verdadeiro tabu, é princípio socialmente excludente, por essência e natureza. Fruto da concorrência desenfreada entre os produtores e de sua posse exclusiva da propriedade. A desigualdade e a exclusão social são intrínsecas ao modo de produção capitalista. O mercado não foi feito para promover a justiça social, mas sim para produzir lucros. A justiça fica por conta, quando existe, de outras entidades voluntárias, como igrejas etc. Crescentemente, o Estado fortaleceu-se e assumiu praticamente todas as funções de regulamentação e administração social e política, como uma espécie de comitê dos setores dos grandes proprietários, em todas as áreas da economia. Colocou a seu serviço as forças militares e policiais, a educação, a saúde pública e outras. Tudo passa pelo Estado. Nesse sentido é estranho falar e eleger a educação como a chave-mestra para resolver a “questão social”: a educação não é determinante, mas sim determinada. Por um Estado que defende interesses específicos, nessa área. O Estado domesticou a sociedade civil. A forma política e ideológica da domesticação se dá através da lei, instrumento de ordenamento repressivo e cativo, base da democracia representativa, que pela lei faz o jogo sutil do equilíbrio entre o “permitido” e o “não permitido”. O capitalismo fortalece cada vez mais o bloco dos mais ricos e fortes e sempre enfraquece os mais fracos, de modo proporcional ou absolutamente. Ciclomático, extremamente dinâmico e eficiente como tecnologia e produtividade, o capitalismo progride através de crises sistêmicas, o que o torna profundamente instável e autodestrutivo a longo prazo. Para cada problema que ele resolve, derivam nove outros. Nas épocas “de baixa”, é enorme o sofrimento dos pobres e trabalhadores, mas ainda do que costuma ser “normalmente”; e entre os ricos e poderosos reina então o desespero, por verem suas fortunas se liqefazerem. O capitalismo, quanto mais desenvolvido e forte, mais polui o meio ambiente e a atmosfera, ameaçando assim nossa sobrevivência. E, no capitalismo menos desenvolvido, polui e agride também o mundo da miséria, a pobreza, as doenças e as pestes. O capitalismo suja o mundo. Transformando-se cada vez mais na “Religião do Ouro”, como dizia o conceituoso professor Daniel Bell, o capitalismo elege o mercado como Deus e todo nós como mercadorias. Prostitui o mundo, compra a beleza, mercantiliza a inteligência, apequena a vida humana, mediocriza as massas populares e corrompe as elites pela cobiça desenfreada por posses e status. Estimulando o consumismo, favorece a obesidade mórbida e o hedonismo, - fundamental é ter, existir, e não ser. O homem se esquece de sua alma.

A história do capitalismo tem sido, como disse, uma história de guerras de conquistas de mercado e de estratégicas geopolíticas de ataque e defesa. Uma história de colonização, de semicolonização, de protetorados e de escravidão e de sua mercantilização. Fato a notar é que a minoria das potências mais fortes e poderosas no início do século 20 o são até hoje, são as mesmas. Não houve quem as deslocasse do domínio do mundo. Um pesadelo para a civilização, para a cultura, eis o capitalismo.

Evidentemente que, junto com todos esses negativos, o progresso promovido pelo capitalismo tem sido notável e benéfico. Mas, se colocarmos o preço humano que temos pago por esse progresso, parece-me que os lados negativos superam os positivos. Vejamos o retrato do mundo hoje para constatarmos essa verdade. Humanidade desorientada, inquietação e medo generalizados, sociedades drogadas (nas muitas formas da droga), pacto cultural e societário rompido, violência desenfreada.

Os dois últimos movimentos de vulto que se opuseram radicalmente ao modelo de capitalismo acima descrito foram o nazifascismo (que desejava o capitalismo por outros modos e fins) e o socialismo. Não duraram muito. O socialismo, com a União Soviética, foi uma tentativa válida de revolucionar e superar o capitalismo, mas se enredou em seu próprio modelo e ideologia e se perdeu, não teve fôlego. A China aí está, um enigma.

E aí está, “gato de sete fôlegos”, o capitalismo tentando agora se costurar em rede planetária sob forma imperial. Lembro-me vagamente de Roma. Mas onde estão e o que fazem agora os bárbaros, os hunos, os godos, os visigodos, os alanos, os partos e os vândalos? Quem se candidata a Àtila?

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Jarbas Medeiros é cientista político e esclarece que faz crítica radical do capitalismo, mas que vive dele, como todos nós, ao que parece. Indaga mesmo se ele, Jarbas, não será talvez um dos produtores espúrios e descartáveis, por não entender a realidade?

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