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História de Trancoso

A tentativa de reconstruir a história de Trancoso esbarra na dificuldade de informações a respeito da antiga aldeia indígena que surge (ou mesmo já existe), na época da chegada dos portugueses, durante os primeiros anos do século XVI.
Com base em textos de autores que relatam algo específico sobre o local foi formada uma 'colcha de retalhos', buscando a liga durante o trabalho de pesquisa.

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- - -O documento raro, encontrado em livro de Abreu (1969* p.205) demonstrado na figura seguinte, confirma algumas informações já conhecidas sobre Trancoso, no Brasil Colônia. Registra as missões dos jesuítas como doutrinadoras dos habitantes locais: tupinambás e tupiniquins.
No mesmo documento aparecem dados inéditos, ainda não transcritos por outros historiadores pesquisados. Menciona o primeiro nome de origem portuguesa, provavelmente colocado por missionários que habitam a região a partir de 1503 - 'São João dos Topes'. E aquele que recebe depois da Ordem Régia, em 1759, que transforma a aldeia em Vila - o então conhecido nome 'Trancoso'. Registra o referido documento uma população formada na época por 120 casais.

- - -Conforme Romeu Fontana (1988, p.56), em 1586 foi fundada a aldeia 'São João dos índios', ou mais precisamente 'São João de Toran’, como esclarece a pesquisa de Capistrano de Abreu (1969, p.205), em seu livro "Capítulos da História Colonial". Como fundadores dessa aldeia colonial estão os jesuítas, que a administram por quase 200 anos.
Possivelmente a antiga aldeia de Boipeba, outro nome citado por Fontana, refere-se a uma época anterior, quando era ainda genuinamente uma aldeia indígena, talvez visitada pêlos primeiros missionários franciscanos, enviados em 1503 por D. Manuel, rei de Portugal. (Fontana, 1988, p.41).

- - -Habitada então por índios tupinambás e tupiniquins, pertencendo a Porto Seguro, acompanha, o ritmo da Capitania. Passa por diferentes momentos e dificuldades, sofre ataques indígenas de tribos, como a dos aimorés. Estes combatem colonizadores portugueses, que impõe sua cultura e modo de ser e indígenas não resistentes a colonização.

- - -Outras perseguições, de cunho religioso, também tumultuam o desenvolvimento local, sendo encontrados poucos registro claros e exatos sobre as mesmas. Três pesquisadores investigados durante esta pesquisa, dão detalhes sobre a Santa Inquisição, e seus reflexos no Brasil, e mais precisamente em Porto Seguro. Pela importância e raridade dos registros, o assunto é tratado com mais detalhes no capítulo 'Formação Étnica e Cultural', ainda neste trabalho.
É importante localizar o século XVI. Época da expansão marítima européia e da colonização portuguesa no Brasil, iniciada exatamente em Porto Seguro a partir de 1500. Essa visão mais ampla possibilita a compreensão das idéias que vieram com essa colonização.

- - -O mundo europeu ocidental passa nessa época por um processo histórico, no qual duas mentalidades mesclam-se. A da 'Idade Medieval' que se despede deixando suas marcas agrárias, rotineiras, e apegadas à fé cristã. E a da 'Modernidade' que dá seus primeiros passos, iniciando a corrida do campo para as cidades que surgem, dando início a uma nova vida mais voltada para a razão.
Os autores Wehling & Wehlíng (1994), ao analisarem a formação do Brasil Colonial, descrevem a sociedade européia nesse tempo composta por um agregado de comunidades, com peculiaridades regionais, lingüísticas e étnicas.

- - -Tribunal da Santa Inquisição: ou Santo Ofício, instituição religiosa criada pela Igreja Católica para enfrentar o avanço do 'movimento cátaro' (cristãos do sul da França). Desde o século XIII, ameaçava a Europa, estendendo-se por vários países, inclusive em Portugal a partir de 1536, chegando a ter forte influência no Brasil Colônia, através de "padres visitadores", representantes da instituição, que intimidavam a população com interrogatórios e duras penas aos presos, acusados de heresia (tudo o que não fosse de acordo com o cristianismo pregado pela Igreja Católica da época).

- - -A população portuguesa da época divide-se entre duas concepções: a 'medieval' que propagava uma visão imposta pelo cristão; e a 'moderna', com predomínio da razão e rebelião contra as fórmulas tradicionais. (Wehling & Wehling, 1994, p. 21-7)
Viajantes, náufragos, degredados, missionários e aventureiros, são esses os primeiros colonizadores que atravessam o mar em busca de um novo destino. Iniciam a vida em Porto Seguro, com a construção de pequeno forte, uma igreja e uma residência, onde passam a morar os padres franciscanos.

- - -Até 1526, quando foi fundada a primeira feitoria, por Cristóvão Jacques, na cidade baixa de Porto Seguro, só há notícias de defesas contra invasores franceses e espanhóis. Estão estes em busca da exploração de pau-brasil, que é arrendada pelo rei para comerciantes portugueses, usando a mão-de-obra indígena sob forma de escambo: em troca de espelhos e objetos de metal como facas e machados.
Fonte: figura de Bueno (1998 p.56).

- - -Surge nessa época um avanço tecnológico nas comunidades indígenas. Um passo da pedra ao metal. (Wehling & Wehling, 1994, p.45)
A história entra em nova fase, a partir de 1530, quando a terra é dividida em Capitanias Hereditárias. Surge então a Capitania de Porto Seguro, onde provavelmente já estava estabelecida a aldeia indígena de Boipeba, hoje Trancoso.

- - -A colonização portuguesa traz, com as capitanias, um modelo europeu e busca impor um modo de vida 'branco, cristão e civilizado'. Tenta modificar valores culturais encontrados na terra em domínio, originando resistência em boa parte dos indígenas.
Nessa época judeus, mouros, ciganos, e povos que não seguem a mesma filosofia religiosa, são perseguidos em seus lugares de origem, acolhidos em Portugal, e obrigados pelo Estado a converterem-se em cristãos. Recebem o rótulo de 'cristãos-novos', sendo que muitos são enviados para a expansão da colonização.

- - -Degredados também são aqui enviados para rendição de suas penas e povoação das terras, sendo os intermediários entre a população indígena e os portugueses colonizadores.(Bueno, 1999, p. 13 - 4).
Poucos são os documentos que relatam esse primeiro século da história de Trancoso, de Porto Seguro ou mesmo do Brasil.
A história só começa a ser registrada por alguns viajantes, a partir de 1534, quando é estabelecida a Capitania de Porto Seguro. Para povoá-la vem com o donatário colonos que constituem em Portugal a classe composta por: 'artesões' (sapateiros, marceneiros, ferreiros...), 'camponeses' (vinculados a terra) e demais 'homens livres' (pescadores, serviçais...).

- - -A classe menos favorecida de Portugal é atraída pela propaganda pró-emigratória para o Brasil. A chamada terceira ordem, que forma junto da primeira - clero, e da segunda - nobreza, a sociedade européia da época. (Wehling & Wehling, 1994, p. 26-60 passim)
Nessa época surgem os primeiros engenhos de açúcar, iniciados por proprietários de terras a aspirar a possibilidade de pertencer à nobreza no Brasil colônia. Em um primeiro momento, as atividades utilizam a mão-de-obra indígena, fracassada pela própria cultura destes que não conhecem a vida fora da natureza e uma disciplina de trabalho que não corresponde também as leis naturais.
.Em 1537, uma proibição da escravidão de índios pelo Papa Paulo III, define uma mudança. (Wehling, Wehling, p. 58). Em 1538, vem então a primeira leva de africanos para compor a nova mão-de-obra dos engenhos.(Fontana, 1988, p. 42)


- - -Lindley, viajante inglês, descreve em página de seu diário na cadeia de Porto Seguro, quando preso por contrabando de pau-brasil, já no século XIX, mais precisamente em 1803, o significado do termo 'engenho'.
"O que vemos aqui é muito simples, consistindo em três cilindros de pesada madeira, de dois pés de diâmetro por três de comprido, os quais giram horizontalmente numa armação. A parte superior do cilindro central articula-se com uma viga que sobe pela armação, sendo nela fixadas peças transversais suficientemente baixas para nelas serem atrelados dois cavalos, que fazem mover o conjunto. Os cilindros laterais trabalham por meio de uma engrenagem que os liga ao central. Debaixo dessa máquina existe um cocho comprido, inclinado, pronto a receber o caldo da cana comprimida pêlos cilindros, esse caldo é transportado para um caldeirão raso, de seis pés de diâmetro, onde são escumadas todas as impurezas. Depois de esfriar noutra vasilha, adiciona-se-lhes um álcali de cinzas de madeira, deixa-se que a mistura assente por alguns dias e decanta-se o líquido puro, levado então a uma caldeira para evaporar-se até formar o açúcar. "( Lindley, 1969, p. 41-2)

- - -Retornando ao ano de 1545, a Inquisição é instalada em Portugal e no ano seguinte o donatário de Porto Seguro: Pêro de Campos Tourinho é acusado por blasfémia e heresia, sendo preso e enviado para julgamento no reino, nunca mais retornando. A partir de então, a região de Porto Seguro passa por fases cada vez mais difíceis, de lutas e discórdias entre nativos e colonizadores, e mesmo entre os diferentes grupos indígenas.
Muitos desses grupos, principalmente os aimorés, não interagem com os colonizadores, e que durante séculos invadem Porto Seguro e imediações, destruindo os engenhos e exterminando grande parte dos colonizadores, dos índios integrados, e dos escravos africanos.

- - -Em 1549, chegam os primeiros jesuítas, entre eles também 'cristãos-novos' admitidos na Companhia de Jesus. Foram construídas mais igrejas, inclusive uma exclusivamente para negros, um dos povos extremamente descriminados da época, considerados apenas como raça escrava, sem direitos.
O historiador português Serrão (1968, p.69) fala sobre crenças diferentes e liberdade de credo existentes no início do Brasil Colónia, tidos como 'heresia', isto é, negação da cristandade.
Em 1551, uma nova leva de africanos chega a Porto Seguro, conforme Fontana (1988, p.42), provavelmente para substituir aqueles que são exterminados nas brigas internas, ou mesmo pela própria vida escrava.
O jornalista e escritor Eduardo Bueno (1999, p.246) narra os ataques indígenas constantes, sofridos pela Capitania nessa época, tendo como consequência seu despovoamento. Muitos moradores vão para Pernambuco, permanecendo em Porto Seguro poucos habitantes.

- - -Encontra-se em Abreu (1960, p. 191), uma carta do Padre João de Aspilqueta, datada de 1555, enviada de Porto Seguro, aqui transcrita, por ser um dos poucos documentos da época que falam sobre costumes das aldeias locais, tendo portanto um valor especial para a presente pesquisa:
"Caríssimos irmãos. Passa de anno e meio que por mandado de nosso P. Manuel da Nobrega ando em .companhia de doze homens christãos, que por mandado do Capitão entrarão pola terra dentro a descobrir se havia alguma nação de mais qualidade, ou se havia na terra coisa porque viessem mais christãos a povoal-a, o que summamente importa para a conversão destes gentios. Esta não he senão para lhes dar conta como depois do tempo que disse voltei com todos os doze companheiros, pela graça do Senhor, salvos e em paz que era o para que o padre me enviara com elles....direi alguma coisa do que passamos e vimos ... livrando-nos também de muitos perigos de Índios contrários que algumas vezes determinaram matar-nos; principalmente em uma aldeã grande onde estavam seus feiticeiros fazendo feitiçarias, aos quaes, porque andam de uma parte para outra, fazem os Índios grandes recebimentos, concertando os caminhos por onde hão de vir e fazendo grandes festas de comer e beber."

- - -Estava pois nesta aldeã muita gente de outras aldeãs que era vinda ás festas dos feiticeiros: logo que nos chegamos houve entre elles algum alboroto: mas um indio principal que ia comnosco mui bom homem, começou a fazer-lhes uma pratica a seu modo, com que socegaram. Apesar disso não quizemos ahi demorarmos mia que aquella noite que foi para tnim mui triste e mui comprida; porque vi cousas que fiquei espantado. - No meio de uma praça tinham feito uma casa grande, e nella outra mui pequena, na qual tinham uma cabaça figurada como cabeça humana mui ataviada a seu modo, e disiam que era o seu santo, e lhe chamavam "Amabozarai", que quer dizer pessoa que dança e folga, que tinha a virtude de fazer que os velhos se tornassem moços. Os índios andavam pintados com tinta, ainda nos rostos, e emplumados de pennas de diversas cores, bailando, e fazendo muitos gestos, torcendo as bocas e dando uivos como perros: cada um trazia na mão uma cabaça pintada, dizendo que aquelles eram os seus sanctos, os quaes mandavam aos índios que não trabalhassem por que os mantimentos nasceriam por si, e que as frechas iriam ao campo matar a caça: esta e outras muitas cousas que eram para chorar muitas lagrimas vi....Ò fructo solido desta terra parece que será quando se for povoando de christãos. Ds. N. Sor. Por sua misericorida tire estes miseráveis das abominações em que estão, e a nós outros dê sua graça, para que sempre façamos sua santa vontade. De Porto Seguro, dia de S. João. Anno de 1555. (Abreu, 1960, p. 191-98)

- - -Na carta, a visão cristã europeia, sobre a cultura existente na terra, espanta-se com os ritos religiosos indígenas, entendendo que devem ser convertidos para que se tornem religiosos cristãos, desconsiderando dessa forma a religiosidade existente. Pelo que descreve no início o objetivo de sua missão é uma análise do local e da população, que continuava vivendo em conflitos.
A continuidade ao plano de repovoamento, do qual faz parte a missão do Padre João Aspilqueta, prossegue em 1563. Nova leva de jesuítas e construção de um colégio para o ensino da gramática latina, traz outra etapa para Porto Seguro. (Fontana, 1988, p.42)
Promovem os jesuítas grandes festas, unindo o costume indígena com datas religiosas, como o Natal e a Páscoa. Surgem atrações como touradas, jogo de argolinhas com foguetes, conforme relato de Fontana (1988, p. 42)

- - -Em 1564, a aldeia Juruacema, perto de Trancoso é despovoada devido a guerra entre moradores e Aimorés. (Sousa, 1971, p. 84)
Em narrativa do Príncipe Maximiliano, viajante inglês naturalista, consta descrições sobre o local desta aldeia e algo sobre a guerra que a destrói.
Uma vez alcançada a margem do norte com toda a "tropa", avançamos, ao longo da costa, pela planície coberta de frondosas balsas, limitadas à distância por colinas; mas logo de novo encontrámos altas e Íngremes ribanceiras de argila e arenito, que foi preciso escalar, pois as vagas impetuosas tomavam a costa inacessível. Segue-se uma trilha escarpada até o cimo dessas "barreira", e entra-se num altiplano, num "campo", denominada Jauassema ou Juassema. Nesse local, de acordo com a tradição dos moradores, houve outrora, nos primórdios da colonização portuguesa, grande e populosa vila do mesmo, ou Insuacume, mas que, à maneira de Sto. Amaro, Porto Seguro e outros estabelecimentos, foi destruída pela guerra com uma bárbara nação de canibais, a "Abaquirá" ou "Abatirá". Essa tradição se baseia, sem dúvida, nas devastações que os Aimorés, ora Botocudos, levaram à "capitania" de Porto Seguro, quando a invadiram em 1560, conforme encontrámos Relatado na History of Brazil de Southey e na Corografia Brasílica. (Maximiliano, 1940, p. 213-14)

- - -As narrativas encontradas comprovam que o local permanece no primeiro século sofrendo guerras e ataques indígenas constantes. Em meio a esses conflitos internos, outros vem do além mar. Portugal perde o domínio do seu reino para a Espanha. Os 'braços' da Inquisição chegam ao Brasil através do apoio do novo rei.

- - -Filipe II inicia em 1580 os próximos 60 anos de reinado espanhol em Portugal, apoiado pela nobreza e clero, com reflexos no Brasil. (Wehling & Wehling, 1994, p. 65). Sabe-se através do pesquisador José Gonçalves Salvador, na investigação dos 'Cristãos-novos, os Jesuítas e a Inquisição' que Filipe II simpatizava com a Inquisição, apoiando a vinda de um delegado do Santo Ofício para o Brasü. (Salvador, 1969, p. 87). Em 1583 o missionário português de Viana, Fernão Cardim, jesuíta, acompanha o 'padre visitador'11 Cristóvão Gouveia em viagem à Bahia. Passa por Porto Seguro e escreve suas impressões nos 'Tratados da Terra e Gente do Brasil";A aldeia São João dos índios, ou São João de Toran, é fundadaIA em 1586, e passa a ser administrada pêlos jesuítas.
11 Funcionário da Inquisição, que operava nos portos marítimos onde não havia o Tribunal. Representando o Santo Oficio, coletava o material necessário para as denúncias.
A fundação é considerada como um marco de quando os jesuítas assumem a sua administração, sendo que a aldeia já existia como um espaço social indígena.

- - -O missionário Cardim, companheiro do 'padre visitador' Cristóvão de Gouveia, que anda por Porto Seguro em 1583, faz referência as aldeias de índios. Os padres têm a seu cargo "duas aldeãs de índios, que terão passante duzentas pessoas e visitam outras cinco ou seis, com muito perigo dos Guaimurés". (Cardim, 1980, p. 149) É muito provável que entre as aldeias citadas, encontre-se a 'Boipeba', que deu origem a Trancoso.

- - -Em um trecho de sua narrativa, descreve a visita na aldeia São Matheus, que fica a '7 léguas', ou 42 Km da Vila de Porto Seguro, "passámos um rio caudal mui formoso e grande, [fala do Rio Buranhém] caminhámos uma légua [6 km] a pé, em romaria a uma nossa Senhora da Ajuda que antigamente fundou um padre nosso; por uma praia alegre". (Cardim, 1980, p. 148)

- - -Pela narrativa a aldeia de São Matheus deveria ser muito próxima à 'aldeia de Boipeba', como se chamava na época a futura São João dos índios, ou ainda São João de Toran. Esta ainda não existia oficialmente, o que aconteceria apenas três anos depois.
Almeida (1998, p.61) confirma a data de 1586 como da fundação da Vila São João. Tem sua igreja o mesmo nome, não sendo conhecida a data do início da sua construção, sendo provavelmente anterior a inauguração da Vila.
Entre os anos de 1591 a 1595, intensificam-se as visitações do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), com prisão de vários cristãos-novos (judeus e descendentes convertidos) em povoados da Bahia, acusados de heresia. (Serrão, 1968,p.70-l)
Novo levante indígena em Porto Seguro acontece em 1609. Os engenhos são destruídos, praticamente acabando o ciclo dessa economia, segundo o relato de Fontana. (1998, p. 46)

- - -É de 1612, o documento transcrito em Serrão (1968, p. 141) que fala das despesas e rendas do Brasil em 1610-1612, informando a balança de pagamento deficitária de Porto Seguro que conta "apenas com um engenho em laboração" e vive uma época estagnada.
Em 1625 acontecem mais denúncias ao Santo Ofício, de pessoas de Porto Seguro, por um padre Frei do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, que serviu de procurador das Capitanias do Sul. (Novinsky, 1972, p. 116)
Continuando as guerras internas, Trancoso, em 1634, é quase totalmente destruída pêlos índios gueréns, conforme relata Fontana. (1988, p. 57)

- - -Segue um hiato de mais de meio século de história desconhecida. Sabe-se que em 1711, o litoral brasileiro foi invadido por piratas atrás do ouro das terras brasileiras. Em 1718 chegam a Bahia famílias de ciganos, expulsos pelo rei dom João V, os saltimbancos ... (Kidder, 1972, p.23)

- - -Nessa época o monopólio jesuítico começou a declinar em Portugal, sendo apoiadas pelo rei as novas ordens como: os oratorianos e teatrinos.

- - -Em 1755 o governo da Bahia aboliu a administração dos jesuítas das aldeias (Abreu, 1969, p. 199), surgindo logo em 1757, leis contra a escravidão indígena e instituição de diretores em aldeias (Wehling & Wehling, 1994, p. 310), devendo estas ter então uma administração puramente civil. (Abreu, 1969, p. 200).
Os jesuítas são expulsos do Brasil e de Portugal, em 1759, por Marquês de Pombal. Consegue ainda o governador, junto ao Papa, a extinção da Ordem. (Wehling & Wehling, 1994, p. 154 e Abreu, 1969, p. 203)

- - -A Aldeia de São João, em 1759, é elevada a Vila "Nova Trancoso", por Alvará Régio de Dom José I, segundo o documento:
"Aos vinte dias do mês de janeiro de 1759 anos, nesta Aldeia de São João da Capitania de Porto Seguro, onde eu tabelião adiante nomeado fui indo com o Capitão-Mor da dieta Capitania, Antônio da Costa Souza e o Ouvidor da mesma, Manuel da Cruz Pereira, e na casa sua aposentadoria, aí mandaram vir perante si todos os principais da dita aldeia e mais o povo dela ... determinar-lhes levantar Vila nesta Aldeia, fazer juízo a todos os mais oficiais da Câmara, justiça e milícia dando à nova vila o nome de Nova Trancoso ... e logo elegerão uma casa de telhas, que havia na dita Aldeia (junto à casa de morada dos Reverendos Missionários e dela por eles mandada fabricar para os seus despejos) para a casa da Câmara um Pelourinho de madeira lavrada em quatro faces, ... e que de hoje em diante não fosse intitulada com outro nome mais que com o referido, que o qual o dito Senhor lhe mandava dar." (Fontana, 1988, p.56)

- - -Outro documento em Abreu, de um 'suspeito jesuíta', segundo ele, dá prosseguimento a pesquisa, montando a história.
"Veio-lhes pois ao pensamento dar o nome e os privilégios de vilas à semelhança das que há em Portugal a muitas aldeias que os índios habitavam, não obstante constarem todas de pobres, e rústicas choupanas, a exceção da igreja e casas dos párocos. Para isto mandando levantar um grande pau no meio de um terreno, dava a este sítio o nome de pelourinho; depois escolhendo entre todos aqueles selvagens alguns, que lhe pareceram ou pela fisionomia do rosto ou pela pele mole do corpo, mais hábeis para os empregos, a que os queria elevar, os constituiu como vereadores ou juizes dos mais dizendo-lhes que eles eram tão bons, como os portugueses: que se governassem a si, sem dependência, ou sujeição alguma dos missionários. Além disto mandou vestir e calçar estas suas novas criaturas, assentá-las à sua mesa, fazendo-lhes nela muitos brindes, e ensinando-lhes ... Os índios porém, acabada a comida, e a companhia desfeita, esquecendo-se de quanto lhes tinha dito o senhor Mendonça apenas saíram da sua presença tiraram os sapatos e vestidos e se emborracharm com os seus vinhos..." (Abreu, 1969, p. 201)

- - -No início do texto exposto, o autor fala sobre o pensamento ocorrido na época: 'nomear as novas vilas com nomes de vilas portuguesas semelhantes'. Surge uma explicação para o novo nome da 'Aldeia São João', então nomeada de 'Vila Nova Trancoso', provavelmente espelhado na Vila de mesmo nome em Portugal, situada no Distrito da Guarda, que fez fronteira com Celorico, conforme mapa encontrado no site www.cm-trancoso.pt (2002).

- - -Ainda em Abreu (1996, p. 197) encontra-se uma importante citação de Loreto Couto, beneditino pernambucano que escreve em 1757, manifestando glorificação ao indígena, em confronto com a antiga gente da região do 'Trancoso português', o que confirma a equivalência da descrição acima.
"Portugal entre Celorico e Trancoso habitavam povos tão brutos e silvestres como animais indómitos, tão rudos que uma família não entendia a língua de outra com menos de duas léguas de distância, pelo que eram julgados pêlos povos confiantes como bestas mais feras que as mesmas feras!" (Abreu, 1969, p. 197)

- - -Mostra ainda o autor outro documento de escritor também pernambucano, ridicularizando a situação em que os governantes haviam deixado acontecer:
"Os índios têm vilas, e câmaras; e são nelas juizes, sem saberem nem ler, nem escrever, nem discorrer! Tudo supre o escrivão; o qual, não passando muitas vezes de um mulato sapateiro, ou alfaiate, dirige a seu arbítrio aquelas câmaras de irracionais..." ( Abreu, 1969, p. 203)

- - -Estes diretores, subistituindo os jesuítas nas aldeias, deveriam ensinar os índios a comerciar e cultivar terras, tornando-se "por esta forma cristãos, civis e ricos, que é o que sem dúvida alguma lhe há de suceder se os diretores fizerem a sua obrigação", palavras transcritas de Mendonça Furtado, Governador-geral em Belém, em Abreu (1969, p. 200).
É o pensamento implantado pelos colonizadores da época: 'Ser cristão, fazer parte da sociedade civil e cultivar a ambição do acúmulo de bens'. Para tanto não é necessário muito estudo, apenas trabalho e o abandono de muitas crenças, costumes e traços característicos da cultura local.

- - -Em 1778, fala-se sobre o esvaziamento e desarticulação das missões. O sistema não funcionou devido à exploração em proveito próprio pelos diretores, sendo então extintos os diretórios. (Wehling & Wehling, 1994, p. 310)
Avançando alguns anos, temos breve comentário de Abreu (1960, p. 63-4) "... Por todo ele se estendia mata grossa e enredada, que vedava passagem. A via única de penetração somava-se em rios... Ilhéus, Porto Seguro... pouco diferi em 1801 do que foram em 1601.”

- - -Outro texto encontrado no diário de Lindley, de Porto Seguro, datado de 17 de agosto de 1802, dá notícias da continuidade das desavenças entre 'mulatos nativos' de Trancoso e índios aimorés.
"Chegaram noticias de Trancoso, informando que os índios ontem estiveram na orla da mata próxima à vila, tendo atingido dois mulatos. Um deles levou uma flechada na coxa e o outro, no peito. Este, caindo, foi imediatamente massacrado. Seu companheiro, ferido também no braço e nas costas, escapou só por aquele momento, pois morreu no mesmo dia. Dez mosquetes, pólvora e balas foram logo enviados aos moradores, para se defenderem. Os arcos desses índios assemelham-se ao arco longo dos ingleses. Medem aproximadamente seis pés e seis polegadas de comprimento e são de sólida feitura, de madeira pesada..." (Lindley, 1969, p. 46-7)
Neste mesmo texto, em nota de rodapé temos: "Tranquoso, no original. Trancoso é uma pequena Vila a 4 léguas de Porto Seguro, à margem de uma enseada, fundada pelos jesuítas. É hoje sede do distrito de igual nome".

- - -No mesmo livro, surge um breve comentário sobre a beleza do lugar, a praia recortada por rios conforme demonstra a figura:" ...a pequena e rasa baía de Trancoso, recorta a praia. Há aqui várias fazendas e a região é encantadora." (Lindley, 1969, p. 155).
Pouco mais que uma década, em 1813, o Príncipe Maximiliano, em sua viagem, registra as tribos indígenas que vivem ao redor de Trancoso.

- - -"Tanto os "Patachos" como os "Machacaris" vivem nas florestas da região, às margens do Jucurucú. Os últimos sempre se mostraram mais inclinados à paz com os brancos do que os primeiros, que somente chegaram a um acordo amigável havia três anos (...) os Patachos são entre os restantes, os mais desconfiados e reservados; o olhar é sempre frio e carrancudo, sendo muito raro permitirem que os filhos se criem entre os brancos, como as outras tribos o fazem prontamente. Vagueiam pelas cercanias; as hordas surgem altemadamente, no Alcobaça, em Prado, Comuruxatiba, Trancoso, etc. Chegando a qualquer lugar, os moradores lhes dão algo para comer, trocando com eles miudezas pulseiras e outros produtos da mata, após o que voltam às brenhas." (Maximiliano, 1940, p. 208/9)

- - -À cavalo pelas praias da região, revela características de Trancoso, por onde passa e fica alojado na Casa da Câmara. Trata-se do relato mais detalhado encontrado sobre a então Vila de Trancoso.
"A manhã seguinte foi ventosa e fria: embrulhamos as roupas molhadas e rumamos para Trancoso. A maré estava então na maior baixa, e o mar deixara completamente descobertos trechos extensos de bancos rochosos e planos: alguns índios, moradores esparsos das pequenas matas vizinhas, apanhavam moluscos para comer. Comem várias qualidades de mariscos, sobretudo a variedade preta e comestível de ouriço do mar (Echinus). Após uma caminhada de três léguas, atingimos o ponto em que um riachinho se lança ao mar: é comumente conhecido por Rio de Trancoso; porém na velha língua aborígene era chamado Itapitanga (filho das pedras), provavelmente porque vem de montanhas pedregosas: corre em um vale bastante profundo, rodeado de montanhas de cimos extensos e planos. Do lado sul se percebe erguendo-se sobre o litoral baixo, as comas de altanados coqueiros e o telhado e a cruz do convento de jesuítas de Trancoso. Alguns homens, indo adiante, conduziram-nos por um caminho escabroso até à vila, onde nos alojamos, por esse dia, na "casa da câmara". (Maximiliano, 1940, p. 216)

- - -No próximo texto transcrito, Maximiliano fala de como está a Vila edificada. Em forma de praça, com a Câmara ao centro, na extremidade do lado do mar a igreja, antigo conventos dos jesuítas, que em sua passagem há muito tinham se retirado de Trancoso. Fala de uma biblioteca dispersada ou destruída.
Pode estar sugerido em seu discurso um possível 'braço' da Santa Inquisição, representada por muitos 'visitadores' nessa região. A destruição de livros com conteúdos não interessantes para a religião cristã da época é um fato comum ao Santo Ofício, retratado no filme "O Nome da Rosa" (1986), adaptação do romance de Humberto Eco .
"Trancoso é uma vila índia, edificada numa longa praça. No meio fica a "casa da Câmara", e na extremidade, do lado do mar, a igreja, que foi outrora um convento de jesuítas. Depois da dissolução da ordem, o convento foi demolido e a biblioteca dispersada ou destruída." (Maximiliano, 1940, p. 216 )

- - -Prossegue Maximiliano e relata uma vida ativa da aldeia: um número razoável de moradores, a maioria índios, provavelmente ainda não miscigenados com as poucas famílias de portugueses residentes. Fala sobre o trabalho nas roças e a exportação de alimentos como farinha, algodão e outros produtos. Comenta sobre a atividade de pesca no mar, em canoas. A criação de gados também faz parte da economia local da Vila nessa época.

- - -Em 1813, a vila possuía cerca de 50 casas e 500 habitantes, todos índios, muitos dos quais de tez bronzeada muito escura, pois bem poucas famílias de portugueses aí residem, entre estes o padre, o "escrivão" e um mercador. As casas, então, estavam na maior partes vazias, porque os moradores vivem nas plantações, limitando-se a vir à igreja nos domingos e dias santos. Exportam perto de 1000 alqueires de farinha de mandioca, um pouco de algodão e diversos produtos da floresta; entre estes, pranchas, "gamelas" (tigelas de madeira) e canoas, além de alguma "embira" e "estopa" (entrecasca de duas espécies diferentes de árvores). Em 1813, o valor desses vários produtos foi de $539 $520 reis. As plantações dos índios estão bem tratadas; cultivam diversas raízes comestíveis, tais como "batatas" "mangaranitos" (Arum esculentum), "cará", "aipim" ou "mandioca", etc., e às vezes vendem esses produtos. A pesca é também uma das atividades essenciais desses índios; no bom tempo saem a pescar mar a fora, nas canoas. Também fazem, no litoral, currais ou "gamboas", a que nos referimos antes.
Cria-se algum gado nas colinas do Trancoso, e o "escrivão", sobretudo, possui um grande rebanho; mas a criação tem que aí vencer sérios inconvenientes. O "campo" dá um pasto seco e nutritivo, com que o gado engorda depressa; entretanto, si não é mandado imediatamente para uma pastagem fresca e úmida, morre todo. A fim de afastar esse perigo, o rebanho é levado de vez em quando ao Rio do Frade. (Maximiliano, 1940, p. 216-17)

- - -Animais como a onça faz parte da fauna local, assaltam gados e assustam os moradores. Eles têm que enfrentá-las com a tecnologia que possuem na época (armadilhas artesanais e precárias armas de fogo).
Interessante notar o Príncipe Maximiliano em todo o seu relato. Nomeia de modo científico plantas e animais, como o caso aqui da onça (Felis Onça Linrí), provavelmente por ser estudioso da natureza e do meio ambiente, fazendo questão de registrar e classificar o que encontra em sua passagem.

- - -"Ao visitar de novo esse lugar, em Novembro, uma grande onça (Felis Onça, Linn.), refugiada nas circujacências, diariamente assaltava o gado pertencente aos moradores da vila. Fizeram-se “mundéus “, e, felizmente, apanharam o filhote da onça: esta, porém, ainda rondava pelas cercanias, enchendo as noites com os seus roucos lamentos. Pouco depois, os índios colocaram armadilhas de arma de fogo em uma trilha que ela costumava seguir, conseguindo matá-la. Á onça foi logo trazida e eu comprei a pele em Trancoso, parecendo-me que o animal pertencia à variedade conhecida, no "sertão" da "capitania" da Baía, pelo nome de "cangussú", caracterizada pelo grande número de pequenas manchas." (Maximiliano, 1940, p.-217)

- - -Neste ponto da descrição, exalta a natureza exuberante de Trancoso, com matas, oceano, rios, planaltos e vales, que formam a paisagem onde está contida. Volta a falar dos pataxós, os quais moram nas florestas que faz fundo à Vila na época.

- - -A situação de Trancoso é deveras aprazível: da extremidade da íngreme eminência, perto da igreja, dominávamos amplo panorama de sereno espelho oceânico, azul-escuro e cintilante; o encontro, muito nítido, da água verde do mar com pardacenta do rio dava especial encanto ao quadro. As comas soberbas dos altos coqueiros ondeavam sobre as cabanas acachapadas dos índios e, em redor , o "campo" inteiro verdejava. Todos esses planaltos incultos são interceptados por vales profundos, alguns dos quais de considerável largura; do meio deles o conjunto parece um plano continuo; só se percebem os vales das bordas. No fundo dos vales correm pequenas correntes, que se lançam no Itapitanga. O que fica ao pé da elevação do Trancoso é um belo prado cheio de arbustos, em que o lindo pombo aí conhecido por "pucacú" ou "caçaroba" e na sistemática por Columba rufina, é visto freqüentemente. Bosques e capinzais orlam as margens do pequeno curso dágua, onde então se construía uma lancha. Por trás de Trancoso, as florestas mais distantes são12 em muitos livros antigos a palavra pataxós, é escrita 'patachos'. Preferimos a primeira forma, por ser a mais usada atualmente, inclusive pelos próprios índios da aldeia de Barra Velha e Coroa Vermelha habitadas pelos pataxós.

- - -"O senhor Padre" Inácio, o digno e velho sacerdote local, disse-me que esses aborígenes aparecem muitas vezes na vila; vão sempre completamente nus, e, si ele amarra um lenço em torno da cintura das mulheres, nunca deixam de arrancá-lo imediatamente. (Maxim iliano, 1940, p.

- - -Em 1816, Debret (1978, p. 151), artista plástico francês, se refere à Trancoso como pertencente a Comarca de Porto Seguro, na Província da Bahia. Descreve as diferentes tribos e raças já miscigenadas vivendo no local.
Daniel Kidder, pastor americano, fala da costa do Espírito Santo, Província da antiga Capitania do mesmo nome e parte da de Porto Seguro.Regiões escassamente povoadas e sem o progresso atingido nos outros lugares por que passa. Fala de terras férteis, as quais conhecem em 1835, matas com madeiras, e plantas medicinais, tribos selvagens, dizendo não haver pelo interior, caminho algum ou estrada batida que ligue a cidade do Rio de Janeiro e a Bahia, os dois limites do local que descreve. Fala ainda sobre os primeiros povoados em ruínas. (Kidder, 1 972, p. 4-6)

- - -Entre 1836 e 1878, Francisco Adolfo de Varnhagen, escreve sobre Porto Seguro. Recebeu o título de Visconde de Porto Seguro (apesar de natural de Sorocaba, Estado de São Paulo) por sua luta em defesa do local. (Fontana, 1 988, p. 13).
Na década de 1920 e 1940, há notícia de 'biribanos sem qualificação deixados nas praias de porto pêlos navios de Unha. (Fontana, 1988,33).

- - -Avançando-se um pouco e há um espaço temporal sobre o qual nada é encontrado escrito a respeito de Trancoso. Apenas 'uma notícia da extinção da Vila em 8 de junho de 1927. Tal fato é narrado por Fontana em: 'Porto Seguro: de aldeia de pescador a aldeia global' (1988 p. 56).

- - -Prossegue o autor falando um pouco dos anos 70, do mesmo século, quando o povoado é constituído apenas por nativos (descendentes das" 'biribanos' ou' biribandos', nome que os nativos davam aos andarilhos que apareciam nas praias de Porto Seguro. (primeiras miscigenações entre brancos, índios e negros). Descreve ainda, a formação da Vila em forma de praça retangular, tal como a encontra o Príncipe Maximiliano em 1813. Exalta as festas de cunho religioso, misturadas com outras tradições, formando a característica de Trancoso do século XX. Comenta sobre os meios de transporte, meios de comunicação e escolas nos primeiros anos dessa década.

- - -Até 1972, só se chegava a Trancoso pela praia, a cavalo ou de barco. Em 1973, finalmente a estrada construída pela prefeitura, chegou até o Rio da Barra. Quando finalmente a estrada foi terminada, as perspectivas começaram a melhorar... Em 1974, segundo dados da Seplantec, Trancoso possuía 43 casas residenciais, 3 estabelecimentos comerciais e uma escola. A agricultura era quase toda para a sobrevivência e o muito que se exportava para Ajuda ou Porto Seguro, era a farinha e o beiju feitos com a própria mandioca (Fontana, 1988, p.57)

- - -Conforme dados de sua narrativa, verifica-se um menor número de casas do que na época descrita por Maximiliano, o que não demonstra um crescimento da população.
Fala em 'caboclos', certificando a miscigenação acontecida neste último século, numa mistura das diferentes etnias. A 'exportação' de diversos produtos locais, reduzida, segundo a narrativa de Fontana, a entrega de farinha e beiju em Porto Seguro. A agricultura de sobrevivência é o que impera no século XX. Uma das bases da alimentação da população ainda é a pesca. Surge o comércio dentro do próprio povoado e uma escola. Provavelmente o autor se refere a professora Higina, que dava aulas em Trancoso, durante a década de 1970.

- - -Continua o autor (Fontana, 1988), falando sobre o final dos anos 70, quando artistas, intelectuais, aventureiros e curiosos começam a aparecer em Trancoso, dando início ao processo de mudança da comunidade. Fazendo amizade com os nativos, permanecem como hóspedes por algum tempo, retornando todos os 'verões. No início poucos ficam morando. Vivem de artesanato ou do comércio de produtos como pães, doces caseiros e outros, que são vendidos às pessoas que chegam. Surge assim uma nova economia, o Turismo.
Verão - “expressão utilizada pelos nativos para indicar período de férias e de calor, quando os turistas aparecem.”

- - -Trancoso, até então compõe uma das partes dos "dois Brasis" igualmente brasileiros, mas separados por vários séculos, descrito por Lambert em 1955. "A casa de taipa e o edifício de concreto são os símbolos expressivos dos níveis de cultura que constituem o país" (Lambert, 1973, p.125). Frase que ilustra perfeitamente a já referida escultura de Cleude (ex-aluno), vista durante a pesquisa de campo. Ao criá-la, expressa o contraste acontecendo, entre dois mundos, trazidos agora para dentro da própria realidade de Trancoso.
Ressurge um novo momento cultural, com novas influências e trocas. Repetem assim outras épocas, principalmente os últimos 500 anos, em que portugueses e demais europeus trocam técnicas e costumes.

- - -A nova fase traz consigo, de forma sutil, uma 'nova colonização'. Nos povos que chegam de fora, está enraizada a idéia de dominação. Mesmo em alguns daqueles primeiros "Sonhadores de Trancoso" (nome de capítulo de Fontana, 1988), em busca de liberdade dos padrões e velhos costumes, percebe-se uma mudança de comportamento, quando os turistas se aproximam em maior escala. Entre dominar ou serem dominados, fazem a sua opção. Muitos compram casas e terrenos dos nativos e tornam-se empregadores em pequenos comércios locais. Usam a mão-de-obra nativa na construção e conservação de suas moradias e seus comércios.
Em meados da década de 1980, Trancoso depara-se com uma nova realidade. Passa não mais a compor uma das partes, mas a conter as duas partes, os "dois Brasis", dentro da própria comunidade. Duas ou mais realidades culturais diversas tentam viver no mesmo espaço/tempo.

- - -A população, agora em nova fase do processo de miscigenação, inclui pessoas de vários lugares do Brasil e de diversas partes do mundo, numa mistura de etnias. Vive um grande desafio de passar por essa transformação, unindo os "dois Trancoso", numa só cultura, numa só comunidade. Apesar da diversidade cultural imensa, pode tornar-se um local de pluraridades que se respeitam e se inter-relacionam, compondo uma nova sociedade, sem preconceitos e domínios.

 

Como Trancoso virou colônia... o começo!!!


- - -Sabemos que a história da colonização de Trancoso tem início com o mecanismo do 'degredo', pelo qual os brancos portugueses purgavam seus pecados na colônia-purgatório.


- - -Aqui a vida dialética representa céu e inferno nas imagens passadas pelos primeiros visitantes ou mesmo moradores vindos do além mar. Essa dicotomia é o ponto central da discussão de Laura de Mello e Souza (1986), em seu estudo "O Diabo e a Terra de Santa Cruz".

- - -Ora o paraíso das terras tropicais, abundantes de alimentos e liberdade. Ora a terra dos selvagens, do calor abrasante, da falta de conforto, dos terríveis e temíveis animais e monstros.
Local propício para se pagar o pecado de 'não ser cristão', um dos crimes mais graves da época. O fato de ter conhecido ou sido criado por outros credos, não dá o direito de escolha. Muitos réus são punidos pelo Tribunal da Inquisição, cumprindo penas no Brasil.
Pesquisando sobre 'Cristãos Novos na Bahia', Anita Novinsky (1972), passa a visão do que ocorre com esta parcela significante da população de origem não cristã.

- - -Tudo tem início com a intolerância já demonstrada na vida européia cristã de 1215, onde uma lei "obriga judeus a usar sinais em suas vestimentas a fim de serem mais facilmente distinguidos dos cristãos." (Novinsky, 1972, p. 27)
Nessa época fugitivos chegam a Portugal, integrando-se a sociedade judaica ou cristã, sendo acolhidos pelo reino.
No final século XV, mais precisamente com D. Manoel, imigrantes são proibidos de continuarem sua prática judaica, ou mesmo qualquer resquício desta, levados à força para a conversão ao catolicismo, (p. 30).

- - -O preconceito contra o 'herege' religioso nasce da manifestação do nacionalismo intolerante que identifica como inimigos da pátria grupos étnicos e religiosos alheios ao Cristianismo. A perseguição contra o 'herege' é, portanto um fenômeno que surge em determinado tempo e local da Europa, espalhando-se na propagação da caça aos 'diferentes', persistindo até os dias de hoje com seus adeptos, (p. 33).

- - -O judeu de Portugal, convertido em católico, fica à margem da sociedade "mantendo quase inconscientemente, a aversão hereditária ao culto das imagens, à comunhão e à confissão...” (p. 37- 40).
Aqueles que partem para as colônias de além-mar assumem uma atitude de inconformismo religioso, tornando-se céticos e críticos da religião oficial, opondo-se ao espírito de autoridade e ao dogmatismo da Igreja... (p. 40)
O cristão-novo passa a ser o 'novo bode expiatório', como já fora o judeu genuíno. A luta contra a heresia se transforma numa psicose coletiva.

- - -A 'limpeza de sangue' é propagada na segunda metade do século XVI, excluindo dos quadros das instituições qualquer descendente de judeu, mouro ou negro. A Inquisição se não cria os estatutos de 'pureza de sangue', aceita tais critérios e os põe em prática.

- - -Os cristãos-novos no Brasil tem características diferentes dos demais que imigram para o norte da Europa. Miscigena-se com a população nativa, que também não é de origem cristã, criando raízes na nova Terra. Mantém vivo em seu espírito a condição de pária.

- - -Uma população desconfiada, insegura e extremamente crítica... Exteriormente uma capa de conformismo e uma técnica de acomodação, que são utilizados como soluções comuns, num regime de força e fiscalização como o mantido pelo 'Santo Ofício' (p. 58).
Segundo a legislação cabe ao cristão-novo, no quadro social o mesmo lugar que ao negro. Portanto, o fato de ser branco como o cristão-velho, permite usar habilidade para fazer parte deste grupo. Tornar-se senhor de engenho nestas terras, traz uma posição de relevo, semelhante ao fidalgo - extensão de terras e número de escravos é o que precisava para emergir, (p. 59).

- - -Encontram-se, portanto cristãos-novos no Brasil colônia, espalhados como cultivadores de terras, senhores de engenho. Os que têm condição humilde (empregados, artesãos), e querem preservar seus traços culturais e religiosos, mesclam-se com negros e índios. Os que querem alcançar posições sociais altas, ansiosos por apagar sua origem, casam com cristãos-velhos.
O pedido do Vigário Temudo, registrado por Novinsky (1972), "pede que se acuda a Bahia com um Tribunal, pois não somente os cristão-novos eram judaizantes, e tinham sinagoga, mas até os índios praticavam rituais judaicos" (p. 114).
São clássicas algumas histórias de cristãos-novos, como a de Duarte Roiz Ulhoa, que tem uma imagem de Santa Tereza que na verdade é a filha queimada em Lisboa (p. 132)

- - -A igreja de Nossa Senhora d'Ajuda é mencionada por diversos autores como Igreja dos Cristãos-novos, em torno da qual se concentram a maior parte dos cristãos-novos baianos.
Entre as práticas judaizantes estão: a crítica ao Santo Ofício, o hábito de ter dois nomes e erguer capela para seus mártires sacrificados em Lisboa.

- - -Fala-se do escândalo no Rio de Janeiro, quando se descobre que a antiga igreja de Nossa Senhora da Ajuda, era na verdade culto de uma certa Maria de Judá... (Salvador, 1969, p.160).

- - -A autora já citada (Novinsky, 1972, p. 72), relata que durante o período abrangido por seu estudo (1624-1654), os principais membros do clero a serviço da Inquisição são os jesuítas. No Século XVII, parte deles o pedido que se tire do Brasil a 'gente da nação' (como eram chamados os cristãos-novos).

- - -Não foi sempre assim, o que mostra a pesquisa de José Gonçalves Salvador (1969), e resulta no livro intitulado "Cristãos-novos, Jesuítas e Inquisição". Entre os jesuítas, estão muitos cristãos-novos.
Jesuítas: cristãos-novos ou inquisidores?

- - -O batismo forçado pretende eliminar distinções, tornando todos praticantes da mesma fé, causa efeito contrário. Os conversos judeus, como são vistos, passam a ser dominados cristãos-novos, bem como seus filhos e descendentes.

- - -Também chamados de criptojudeus os cristãos fictícios, se opõem aos cristãos-velhos. Grupo étnico-social privilegiado, vinculado tradicionalmente à igreja e a antiga etnia, não israelita, nem moura, negra ou de outra infecta sanguinidade, conforme acreditam certos europeus. (Salvador, 1969, p. XX).

- - -No Brasil, à testa de vigárias importantes e em determinadas ocasiões um bom número de igrejas se acha suprido por sacerdotes cristãos-novos. Muitos deles são colaboradores do Santo Ofício, empenhados na conversão dos irmãos de mesma etnia, mesmo que agressivamente.

- - -"Nas longínquas capitanias do Sul o quadro apresenta-se mais amplo ainda, quanto ao número de sacerdotes e de religiosos cristãos-novos identificados por nós. Afora os jesuítas Leonardo Nunes, Inácio de Loyola, que eram por inteiro, e José de Anchieta só em parte... (Salvador, 1969, p. 31)”.

- - -Por mais estranho que pareça o hebreu querer fazer-se clero católico, entende-se que o sacerdócio é uma ótima profissão, de respeito e prestígio, e que inclusive pode protegê-los da própria condição.
Estabelecido o Tribunal do Santo Ofício em Portugal, acaba a tranqüilidade dos cristãos-novos, mesmo aqueles que habitam as terras além mar. Bastam denúncias falsas, produzidas por inimigos, para serem lançados nos cárceres repugnantes, isolados da família e do mundo, despojados dos bens materiais, mal nutridos, ignorando o nome do acusador, e submetido a castigos típicos, como o 'polé' e o 'potro'27(p.81)

- - -Mesmo saindo com vida, caso julgados inocentes, ficam com anomalias, pobres e mal vistos pela sociedade.
Se são os jesuítas cristãos-novos convertidos em verdadeiros Inquisidores, ou se aproveitam do sacerdócio para não causar mais suspeitas.

“polé”: içados pêlos braços, por uma corda que corria numa roldana e largado do alto; “‘potro: banco ou cama de ripas em que se amarrava, e cordas arrochadas por manivelas. Quem se mantivesse pertinaz seria condenado à fogueira”.


- - -Quanto a sua origem judaica, podendo dessa forma passar desapercebidos entre cristãos-velhos, não é conhecida a verdade.
É fato no Brasil, durante os primeiros séculos, que quase todo o ensino permanece em mãos dos membros da Companhia de Jesus. São as escolas de que dispõem as famílias para os filhos. Ficam os jesuítas responsáveis pela administração das aldeias e educação da população, até a sua expulsão do país, já comentada neste trabalho.

- - -Não é certo que todos lutam por uma missão essencialmente cristã. Se há muitos cristãos-novos infiltrados em seu meio, é possível que estes tenham sido favorável também à liberdade de expressão religiosa e cultural.
É o que parece ter acontecido em Porto Seguro, no Arraial D'Ájuda e mais precisamente em Trancoso. Mesmo separado por várias gerações, os habitantes do final do século XX, tem características fortes, que marcam seu modo de ser, de sentir e de viver o mundo, que pouco ou nada correspondem ao critério europeu, branco, católico, adotado por grande parte de nosso país.
Usos e costumes preservados

- - -As descrições das casas indígenas do início do século XVII correspondem às casas dos nativos de Trancoso nos anos 80: pau-a-pique, embarreadas e cobertas por palhas ou 'taubinha' com chão de terra, sem divisões.

 

Fonte: "Trancoso, uma história de vida e educação" 2002

Autora: Mariângela de Lara Moraes Daibert

Centro de Pós-graduação da Associação de Ensino de Itapetininga

 

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Trancoso e colonizadores ao longo dos tempo...
Trancoso colônia - onde tudo começou...

" Preserve nossa História "
Extraído do livro "Trancoso, uma história de vida e educação" 2002 - Autora Mariângela de L. Moraes Daibert
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